quinta-feira, 20 de junho de 2013

catas altas

depois sou só eu e minha mochila novamente. escuto de muitas pessoas a frase 'você não é daqui, né'. e não tenho uma resposta rápida pra dizer. florianópolis? rio? não há como não repensar a ideia de pertencer a algum lugar.  leio hilda hilst em uma mureta com uma vista linda para as montanhas. 'tu não te moves de ti' é o livro que propositalmente levo comigo.

pego um ônibus e vou para catas altas. meu joelho dói muito - vestígios das ruas de ouro preto no meu corpo. fico um pouco aflita, pois toda essa viagem só faz sentido na medida em que eu puder continuar caminhando. peço algumas dicas por telefone para minha mãe: joelheira ortopédica + anti-inflamatório + emplastro. invisto em todos os itens e em poucas horas já me sinto melhor. a viagem de ônibus até catas altas foi ótima. muitas visões bonitas de imensas montanhas verdes. pessoas as mais diversas entrando e saindo do ônibus e passagem por pequenas cidades, com casinhas antigas e simples e de beleza imensa. cheguei em catas altas umas duas horas depois.

a cidade que idealizei deserta, na verdade, me parece bem povoada. vejo muitas pessoas andando lentamente pelas ruas e algumas paradas nas portas das casas e do comercio. fico hospedada em uma pousada que fica na casa de uma artista (ceramista, pintora, gravurista) chamada letícia. ela me deu um belo quarto, todo rodeado por janelas de onde posso ver umas montanhas altíssimas da serra da caraça.

a mochila que tanto pesa em minhas costas também me abre portas. letícia me fez um desconto generoso ao perceber minha condição de viajante mochileira. quando cheguei, ela estava modelando um grande vaso em formato de gato. disse que um de seus gatinhos havia morrido no dia anterior, que ela tinha começado o vaso olhando pra ele e agora ia termina-lo em sua homenagem.

ando pela cidade deslumbrada e tirando várias fotos. puxo papo com um senhor e peço para fotografa-lo na frente de sua casa. ele consente e logo pergunta se sou casada. essa pergunta sempre me assusta, apesar de acreditar que, no caso, ele estivesse apenas puxando conversa. mas me retraio um pouco, me vendo na condição de 'moça sozinha em cidade pequena'. depois noto que há poucas mulheres pela rua e fico levemente preocupada, sem saber o quanto devo me prevenir.

depois percebo que posso relaxar. o senhor dono do restaurante onde janto é gentil e faz meu jantar por 7 reais, em vez de 10, porque eu comi pouco. pequenas coisas assim me cativam e entendo as gentilezas que recebo pelo percurso como pequenas trocas afetivas. na pousada, fico um tempo vendo tevê com letícia, que me promete me levar no seu ateliê no dia seguinte.

meus ossos desconjuntados, se atritando. sinto algumas dores, que carrego não sem sentir algum orgulho. novamente pela estrada, cruzando mares de montanhas. amedrontada por estar indo longe demais, muito ao centro, pro interior. depois completamente grata por estar aqui. eu estou onde queria estar e me trouxe aqui com minhas próprias pernas. pernas que vagueiam pelas ruas de pedra, se estarrecem diante da serra e do sol que se põe queimando o horizonte ondulado. toda hora pressinto o peso da solidão e então me dou conta dessa rara qualidade que preciso cultivar: estar cheia mesmo quando vazia, estar vazia mesmo quando cheia. feito taça, potente em meu esvaziamento, aberta para abrigar os sumos e os muitos vinhos do mundo. de corpo inteiro, mesmo quando só. solidão que acolhe e é acolhida pelos cheios do mundo.

no dia seguinte, ando sonolenta pelas rua irregulares. tomo café e ando por aí fotografando a cidade. enquanto sinto meu espírito convulsionar, na ânsia por distrações e estímulos, os moradores da cidade andam com calma e alegria pelas ruas. aqui não há sequer uma livraria ou acesso a internet. vivem em outro tempo, em outro mundo. uma cidade apoiada em morros altíssimos, ensolarada, silenciosa. durante à noite consigo ouvir muitos bichos, cães, galinhas, vacas. um homem me conta que na serra da caraça há onças e muitas aranhas. a floresta nos ronda.

durante a manhã, ando até a curiosa igreja de santa quitéria e descubro atrás dela uma estrutura arredondada que funciona como caixa d'água, mas tem jeito de observatório astronômico. subo nela por uma escada que acho ali perto e ali em cima me deparo com a vista mais impressionante que já vi até agora. gostaria de ter ficado muito tempo ali, mas pressinto que posso correr algum perigo porque o local é muito deserto. não sei se estou pensando com minha cabeça de rio de janeiro, ou se é apenas prudência. mas decido não discutir com minha intuição. uso o arrepio também como uma bússola.

depois passo a tarde tomando o delicioso vinho de jabuticaba produzido na região. visito a impressionante e inacabada igreja central. e busco a calma necessária para não ficar inquieta diante de tanta quietude. desisto de ocupar o dia e deixo o dia me ocupar.

agora na rodoviária de BH. saí de catas altas bem cedo e cheguei aqui umas 3 horas depois. comprei minha passagem para salvador e embarco apenas à noite. serão 24 horas de estrada. e meu corpo já anseia pelo calor e o mar que é pra onde eu sempre volto.

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