domingo, 16 de junho de 2013

ouro preto

sonhos galopantes dentro de um ônibus veloz. minhas mãos inquietas, sob as coxas, com frio e movidas pelo ímpeto de uma despedida prolongada. atenta aos sinais que vão ficando toda horas mais distantes. minhas coisas caíram, acordo com tudo rente ao chão. atenção sonolenta, a carne atravessada pelo peso e pelo frio. chego em uma cidade que é toda névoa. igrejas feito sentinelas de um passado persistente ladeiam meu caminho tonto. ziguezagueando pelo chão liso, torço um pé, depois ando com a atenção de um toureiro. vejo uma mulher que olha a cidade lá de cima. a fotografo como se ela fosse eu: quieta e leve. o peso nas minhas costas é só uma impressão. me sinto solta, tão leve que pressinto a nostalgia de um peso qualquer. pessoas pela rua indicam meu caminho, me dedicam uma gentil atenção.

depois, no hostel, esperando para saber se vou poder ficar ali, já estou apaixonada pela vista que lembra uma pintura de guignard. quero ficar, mas é cedo e preciso esperar até depois do meio-dia. na tevê falam sobre banheiras, piscinas, yoga, risadas. o rapaz do hostel, enquanto espero, me presenteia com dois pães de queijo. o mundo é muito bom. me sinto ansiosa por estender meu corpo na cidade. experimentar a cachaça, andar sem rumo, espalhar minha pele pelas ruas, perder o centro. uma placa, na praça central, me avisa: aqui em poste de ignominia esteve exposta sua cabeça.

arde minha garganta a cachaça que tomo lentamente sentada na praça gelada. já tenho onde ficar, e tenho tudo: uma cama, banho quente e a pintura de guignard como vista imediata. por enquanto, me sinto transportada para uma temporalidade confusa. ruas que são labirintos, igrejas como castelos, museus templos de extintos heróis. escorre invisível sangue de mártires antigos pelas pedras. a cidade me acolhe com calma e ferocidade e há a promessa de percursos serpentinos, céus barrocos que rasgam igrejas, anjos demoníacos, cachaças infernais e o peso de um passado que a tudo vigia.

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