ontem entrei em mais igrejas e mais museus. e há tanto furo e tanta voluta, volumes e texturas que me calam com um deslumbre fácil. nesses lugares, ouço algumas histórias banais e umas outras maravilhosas. escuto um guia que conta aos visitantes sobre como as missas, em séculos passados, contavam com uma fumaça alucinógena que era emanada pelas velas e subia até a nobreza que sempre ficava num andar acima do resto das pessoas. alucinados, viam os anjos dançarem e doavam ainda mais dinheiro para a paróquia. bela imagem essa, de uma nobreza alucinada. sorri em silêncio, fingindo que não ouvia furtivamente a explicação que não era endereçada a mim.
fico apaixonada pelos ex-votos, pinturas singelas e populares que agradecem milagres. me tocam mais que qualquer igreja maravilhosa.
enquanto tomo café e escrevo, vejo um passarinho bicando a própria imagem em um espelho. e eu penso: de que adianta voar e continuar fascinado pela própria imagem conhecida. tomo isso como um aviso.
sinto as pernas doerem a cada ladeira que subo. o coração acelera muito e fico sem fôlego. e toda vez que minha respiração dificulta lembro do sonho que tive uns antes de vir no qual eu estava com moradores de rua e todos eles falavam sozinhos ou respiravam longamente. o sonho era só isso, mas tinha uma solenidade profunda. ao fim, eu ia embora dizendo para eles: deus é fôlego. aqui, a cozinheira do hostel, a cada vez que saio, me diz gentilmente: vai com deus. recebo, grata, deus como um potente fôlego.
faz meses que pesquiso a prática da viagem entendendo-a como uma prática de perda: uma perda que produz um ganho. a primeira perda que sofro aqui é a do próprio medo de perder. é preciso perder esse medo para ganhar, para viajar sob o signo do ganho. comer a cidade com os olhos e deixar que meus tumultuosos sonhos me indiquem apenas o que é fantasma, o que sou quando sou passarinho bicando o espelho. quero antes sobrevoar, roçar o corpo nos solos e não criar raiz. ou criar raízes móveis.
planejo meus próximos passos. quero ir para uma pequena cidade chamada catas altas. vou à rodoviária me informar sobre passagem e horário e descubro que há dois municípios com o mesmo nome. um chamado catas altas da noruega e outro apenas catas altas (que antes era catas altas do mato dentro). vou para catas altas, apenas. lá na rodoviária sou informada da história de um padre que vive na serra do caraça e que fez amizade com os lobos locais. me recomendaram ir visita-lo, para ver os lobos que, de tão mansos, recebem comida das mãos do padre. fico tentada a ver os lobos, mas acho que prefiro isso como história. e também não sei se quero lobos comendo na minha mão. quero antes os lobos pelo caminho, como o aviso de toda a ferocidade do mundo que margeio com meus passos incertos.
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ResponderExcluirvisitei ouro preto há 12 anos e achei incrível. as histórias dos santos que os guias contam nas igrejas são demais. o clima meio universitário em contraste com as ruas históricas também me marcou muito. recomendo visitar as antigas minas de ouro e visitar a igreja que os escravos fizeram com ouro roubado.
ResponderExcluirsim, rafa. as histórias nas igrejas são ótimas. fiquei encantada com o museu dos oratórios também. lindo.
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